Maria
Nascida no monte
À beira da estrada
Maria
Bebida na fonte
Nas ervas criada
Talvez
Que Maria se espante
De ser tão louvada
Mas não
Quem por ela se prende
De a ver tão prendada
Maria
Nascida no trevo
Criada no trigo
Quem dera
Maria que o trevo
Casara comigo
Maria
De todos a primeira
De todas menina
Maria
Soubera a cigana
Ler a tua sina
Não sei
Se deveras se engana
Quem demais se afina
Maria
Sol da madrugada
Flor de tangerina
José Afonso
Recolha colectiva dos formandos deste curso e da Formadora de Linguagem e Comunicação
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sexta-feira, 29 de maio de 2009
quinta-feira, 21 de maio de 2009
"AS FONTES", Sebastião da Gama
Havia fontes na montanha.
Mas estavam fechadas.
Ignoradas,
beijavam só as vaias da montanha.
Ora um dia
não sei que vento passou
que me ensinou
aquelas fontes que havia.
Eu tinha mãos e mocidade;
só não sabia pra quê.
Fez-se nesse momento claridade.
Rasguei o ventre dos montes
e fiz correr as fontes
à vontade.
Então
veio quem tinha sede e quem não tinha.
De todas as aldeias
vieram, cantando, as moças
encher as bilhas.
E eu fui também cantando ao som das águas...
Cantava as minhas mãos, cantava as fontes.
Era um canto jucundo,
cheio de sol.
Mas a meio da nota mais alegre
muita vez uma lágrima nascia.
(Ai quantos, quantos,
minha canção tornava mais conscientes
da sua melancolia
sem remédio!
Ai a mágoa
que lhes era meu hino!
Ai o insulto desumano
à sua melancolia!)
Era a meio do canto que surgia
seu travo amargo...
Mas, a meu lado, as águas
iam matando a sede de quem vinha...
Gama,Sebastião - Cabo da Boa Esperança. Lisboa:Editora Ática,s/d pp.22-24
Recolha de Sidónio Vieira
* Obra do acervo da Biblioteca desta escola
Mas estavam fechadas.
Ignoradas,
beijavam só as vaias da montanha.
Ora um dia
não sei que vento passou
que me ensinou
aquelas fontes que havia.
Eu tinha mãos e mocidade;
só não sabia pra quê.
Fez-se nesse momento claridade.
Rasguei o ventre dos montes
e fiz correr as fontes
à vontade.
Então
veio quem tinha sede e quem não tinha.
De todas as aldeias
vieram, cantando, as moças
encher as bilhas.
E eu fui também cantando ao som das águas...
Cantava as minhas mãos, cantava as fontes.
Era um canto jucundo,
cheio de sol.
Mas a meio da nota mais alegre
muita vez uma lágrima nascia.
(Ai quantos, quantos,
minha canção tornava mais conscientes
da sua melancolia
sem remédio!
Ai a mágoa
que lhes era meu hino!
Ai o insulto desumano
à sua melancolia!)
Era a meio do canto que surgia
seu travo amargo...
Mas, a meu lado, as águas
iam matando a sede de quem vinha...
Gama,Sebastião - Cabo da Boa Esperança. Lisboa:Editora Ática,s/d pp.22-24
Recolha de Sidónio Vieira
* Obra do acervo da Biblioteca desta escola
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"Raízes", Jorge Sousa Braga
Quem me dera ter raízes,
que me prendessem ao chão.
Que não me deixassem dar
um passo que fosse em vão.
Que me deixassem crescer
silencioso e erecto,
como um pinheiro de riga,
uma faia ou um abeto.
Quem me dera ter raízes,
raízes em vez de pés.
Como o lódão, o aloendro,
o ácer e o aloés.
Sentir a copa vergar,
quando passasse um tufão.
E ficar bem agarrado,
pelas raízes, ao chão.
Braga, Jorge Sousa - Herbário. Lisboa: Assírio & Alvim,2007,p.26
Recolha de João Fernandes
* Obra do acervo da Biblioteca desta escola
que me prendessem ao chão.
Que não me deixassem dar
um passo que fosse em vão.
Que me deixassem crescer
silencioso e erecto,
como um pinheiro de riga,
uma faia ou um abeto.
Quem me dera ter raízes,
raízes em vez de pés.
Como o lódão, o aloendro,
o ácer e o aloés.
Sentir a copa vergar,
quando passasse um tufão.
E ficar bem agarrado,
pelas raízes, ao chão.
Braga, Jorge Sousa - Herbário. Lisboa: Assírio & Alvim,2007,p.26
Recolha de João Fernandes
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"Mulher", Yvette K. Centeno
quando o ventre é o mar
quando o ventre é a água
salgada
numa boca
quando o ventre é a fonte
quando o ventre é a forca
Centeno, Yvette K. in Fanha, José, Letria,José Jorge (org.)- Cem Poemas Portugueses no Feminino. Cascais: Ed. Terramar,2005
Recolha de Olga Pereira
*Obra do acervo da Biblioteca desta escola
quando o ventre é a água
salgada
numa boca
quando o ventre é a fonte
quando o ventre é a forca
Centeno, Yvette K. in Fanha, José, Letria,José Jorge (org.)- Cem Poemas Portugueses no Feminino. Cascais: Ed. Terramar,2005
Recolha de Olga Pereira
*Obra do acervo da Biblioteca desta escola
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"O burro de Loulé", Eugénio de Andrade
Era um burro muito burro,
ou melhor, era pateta,
pois vinha de Loulé,
sem ser coxo nem perneta,
sempre,sempre sobre um pé.
Andrade, Eugénio - Aquela nuvem e outras. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2005 ,pág. 5
Recolha de João Fernandes
* Obra do acervo da Biblioteca desta escola
ou melhor, era pateta,
pois vinha de Loulé,
sem ser coxo nem perneta,
sempre,sempre sobre um pé.
Andrade, Eugénio - Aquela nuvem e outras. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2005 ,pág. 5
Recolha de João Fernandes
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"Nunca fala da Vida", Sebastião da Gama
Nunca fala da Vida
sem que entristeça...
- Mas as flores que morrem
nascem outra vez...
Mas pela ardentia
zunem as cigarras...
Mas aquela moça
traz no ventre um filho...
Mas das folhas secas
que há pelo Outono
(de olhá-las a gente
quase entristecia)
já ninguém se lembra,
quando é Primavera...
Gama, Sebastião da - Cabo da Boa Esperança. Lisboa:Edições Ática,s/d, p.17
Recolha de Sidónio Vieira
* Obra do acervo da Biblioteca desta escola
sem que entristeça...
- Mas as flores que morrem
nascem outra vez...
Mas pela ardentia
zunem as cigarras...
Mas aquela moça
traz no ventre um filho...
Mas das folhas secas
que há pelo Outono
(de olhá-las a gente
quase entristecia)
já ninguém se lembra,
quando é Primavera...
Gama, Sebastião da - Cabo da Boa Esperança. Lisboa:Edições Ática,s/d, p.17
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"Lá vai outra vez o gato maltês", Eugénio de Andrade
Lá vai outra vez
o gato maltês
a comer atrás
da franga pedrês
Andrade, Eugénio - Aquela nuvem e outras. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2005,pág.12
Recolha de João Fernandes
* Obra do acervo da Biblioteca desta escola
o gato maltês
a comer atrás
da franga pedrês
Andrade, Eugénio - Aquela nuvem e outras. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2005,pág.12
Recolha de João Fernandes
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"As couves", Jorge Sousa Braga
Couve de bruxelas
Couve lombarda
Couve-galega
Couve roxa
Couve-flor...
Porque é que nunca houve
ninguém que lhe fizesse
um poema de amor?
Braga, Jorge Sousa - Herbário. Lisboa: Assírio & Alvim,2007,p.33
Recolha de João Fernandes
* Obra do acervo da Biblioteca desta escola
Couve lombarda
Couve-galega
Couve roxa
Couve-flor...
Porque é que nunca houve
ninguém que lhe fizesse
um poema de amor?
Braga, Jorge Sousa - Herbário. Lisboa: Assírio & Alvim,2007,p.33
Recolha de João Fernandes
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"As patas de cavalo", Jorge Sousa Braga
Não patas, são pegadas
que um cavalo, em lugar
de deixar gravadas no chão,
deixou gravados no ar.
Recolha de João Fernandes
Braga, Jorge Sousa - Herbário. Lisboa: Assírio & Alvim,2007,p.9
*Obra do acervo da Biblioteca desta escola
que um cavalo, em lugar
de deixar gravadas no chão,
deixou gravados no ar.
Recolha de João Fernandes
Braga, Jorge Sousa - Herbário. Lisboa: Assírio & Alvim,2007,p.9
*Obra do acervo da Biblioteca desta escola
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quarta-feira, 20 de maio de 2009
"A Sequóia"
Ela é muito, muito velha,
mas está bem conservada.
Ela é tão grande, tão grande,
que não cabe nesta quadra.
Braga, Jorge Sousa - Herbário. Lisboa: Assírio & Alvim,2007,p.28
Recolha de João Fernandes
* Obra do acervo da Biblioteca desta escola
mas está bem conservada.
Ela é tão grande, tão grande,
que não cabe nesta quadra.
Braga, Jorge Sousa - Herbário. Lisboa: Assírio & Alvim,2007,p.28
Recolha de João Fernandes
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"O Apanha-Moscas", Jorge Sousa Braga
Ela come, come tudo,
come tudo o que apanhar!
mas do que ela mais gosta,
ao almoço ou ao jantar,
é de uma boa mosca!
Ela come, come tudo,
até come uma mosca inteira,
nem que seja varejeira,
num abrir e fechar os olhos!
Braga, Jorge Sousa - Herbário. Lisboa: Assírio & Alvim,2007,p.16
Recolha de João Fernandes
* Obra do acervo da Biblioteca desta escola
come tudo o que apanhar!
mas do que ela mais gosta,
ao almoço ou ao jantar,
é de uma boa mosca!
Ela come, come tudo,
até come uma mosca inteira,
nem que seja varejeira,
num abrir e fechar os olhos!
Braga, Jorge Sousa - Herbário. Lisboa: Assírio & Alvim,2007,p.16
Recolha de João Fernandes
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"Branca estais e colorada", Gil Vicente
Branca estais e colorada
Virgem sagrada
Em Belém, vila de amor
da rosa nasceu a flor
Virgem sagrada!
Em Belém, vila de amor
nasceu a rosa do rosal,
Virgem sagrada!
Da rosa nasceu a flor
para nosso Salvador:
Virgem sagrada!
Nasceu a rosa do rosal,
Deus e homem natural:
Virgem sagrada!
Gil, Vicente in Andresen, Sophia de Mello Breyner(org.) - Primeiro Livro de Poesia.Lisboa:Editorial Caminho,1997, p. 15.
Recolha de Jorge silva
* Obra do acervo da Biblioteca desta escola
Virgem sagrada
Em Belém, vila de amor
da rosa nasceu a flor
Virgem sagrada!
Em Belém, vila de amor
nasceu a rosa do rosal,
Virgem sagrada!
Da rosa nasceu a flor
para nosso Salvador:
Virgem sagrada!
Nasceu a rosa do rosal,
Deus e homem natural:
Virgem sagrada!
Gil, Vicente in Andresen, Sophia de Mello Breyner(org.) - Primeiro Livro de Poesia.Lisboa:Editorial Caminho,1997, p. 15.
Recolha de Jorge silva
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"A Palavra", Miguel Torga
S. Martinho de Anta, 13 de Abril de 1965
Falo da natureza.
E nas minhas palavras vou sentindo
A dureza das pedras,
A frescura das fontes,
O perfume das flores.
Digo, e tenho na voz
O mistério das coisas nomeadas.
Nem preciso de as ver,
Tanto as olhei,
Interroguei,
Analisei
E referi, outrora,
Que nos próprios Sinais com que as marquei
As reconheço agora.
Torga,Miguel - Antologia Poética. Lisboa: Pub. D. Quixote, 2001, p.378.
Recolha de Jorge Silva
Falo da natureza.
E nas minhas palavras vou sentindo
A dureza das pedras,
A frescura das fontes,
O perfume das flores.
Digo, e tenho na voz
O mistério das coisas nomeadas.
Nem preciso de as ver,
Tanto as olhei,
Interroguei,
Analisei
E referi, outrora,
Que nos próprios Sinais com que as marquei
As reconheço agora.
Torga,Miguel - Antologia Poética. Lisboa: Pub. D. Quixote, 2001, p.378.
Recolha de Jorge Silva
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"Soneto do Amor impossível" , Jorge Amado
A Andorinha sinhá
A Andorinha sinhá
Andorinha bateu asas
e voou
vida triste minha vida,
não sei cantar nem voar,
não tenho asas nem penas
não sei soneto escrever.
Muito amo a Andorinha,
com ela quero casar.
Mas a Andorinha não quer,
Comigo casar não pode
porque sou Gato Malhado,
ai!)
Amado, Jorge - Gato Malhado e Andorinha Sinhá: Uma História de Amor. Lisboa:Pub. D. Quixote, 2001, pág. 60
Recolha de Arnaldina Moreira
* Obra do acervo da Biblioteca da escola
A Andorinha sinhá
Andorinha bateu asas
e voou
vida triste minha vida,
não sei cantar nem voar,
não tenho asas nem penas
não sei soneto escrever.
Muito amo a Andorinha,
com ela quero casar.
Mas a Andorinha não quer,
Comigo casar não pode
porque sou Gato Malhado,
ai!)
Amado, Jorge - Gato Malhado e Andorinha Sinhá: Uma História de Amor. Lisboa:Pub. D. Quixote, 2001, pág. 60
Recolha de Arnaldina Moreira
* Obra do acervo da Biblioteca da escola
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Natureza
quinta-feira, 14 de maio de 2009
"Não Vale a Pena Pisar", Manuel Rui
O capim não foi plantado
nem tratado,
e cresceu. É força
tudo força
que vem da força da terra.
Mas o capim está a arder
e a força que vem da terra
com a pujança da queimada
parece desaparecer.
Mas não! Basta a primeira chuvada
para o capim reviver.
Rui, Manuel in Andresen, Sophia de Mello Breyner (org.) - Primeiro Livro de Poesia.Lisboa: Ed. Caminho, 1997, p.116.
Recolha de Elisabete Teixeira
* Obra do acervo da Biblioteca desta escola.
nem tratado,
e cresceu. É força
tudo força
que vem da força da terra.
Mas o capim está a arder
e a força que vem da terra
com a pujança da queimada
parece desaparecer.
Mas não! Basta a primeira chuvada
para o capim reviver.
Rui, Manuel in Andresen, Sophia de Mello Breyner (org.) - Primeiro Livro de Poesia.Lisboa: Ed. Caminho, 1997, p.116.
Recolha de Elisabete Teixeira
* Obra do acervo da Biblioteca desta escola.
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quarta-feira, 13 de maio de 2009
"Amoras", Eugénio de Andrade
As amoras
O meu país sabe a amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.
Andrade, Eugénio - Poesia. Porto:Fundação Eugénio de Andrade,2000.
Recolha colectiva dos formandos do curso
O meu país sabe a amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.
Andrade, Eugénio - Poesia. Porto:Fundação Eugénio de Andrade,2000.
Recolha colectiva dos formandos do curso
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