Quem me dera ter raízes,
que me prendessem ao chão.
Que não me deixassem dar
um passo que fosse em vão.
Que me deixassem crescer
silencioso e erecto,
como um pinheiro de riga,
uma faia ou um abeto.
Quem me dera ter raízes,
raízes em vez de pés.
Como o lódão, o aloendro,
o ácer e o aloés.
Sentir a copa vergar,
quando passasse um tufão.
E ficar bem agarrado,
pelas raízes, ao chão.
Braga, Jorge Sousa - Herbário. Lisboa: Assírio & Alvim,2007,p.26
Recolha de João Fernandes
* Obra do acervo da Biblioteca desta escola
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quinta-feira, 21 de maio de 2009
"Desci dos celestes coros", Júlio Dinis
Desci dos celestes coros,
Por Deus mandada a escutar
Da infância as queixas e os choros,
para lhos ir confiar.
Desci.Na terra nos mares,
Tanta miséria encontrei,
Que os meus magoados olhares.
Da terra e mar desviei.
Desci.E tantos gemidos.
Tão dolorosos ouvi!
Que, turbados os sentidos,
Quis recuar...mas desci.
(...)
Dinis, Júlio - A Morgadinha dos Canaviais. Mem-Martins: Ed. Europa-América,1973, p.180
Recolha de Arnaldina Moreira
* Obra do acervo da Biblioteca desta escola
Por Deus mandada a escutar
Da infância as queixas e os choros,
para lhos ir confiar.
Desci.Na terra nos mares,
Tanta miséria encontrei,
Que os meus magoados olhares.
Da terra e mar desviei.
Desci.E tantos gemidos.
Tão dolorosos ouvi!
Que, turbados os sentidos,
Quis recuar...mas desci.
(...)
Dinis, Júlio - A Morgadinha dos Canaviais. Mem-Martins: Ed. Europa-América,1973, p.180
Recolha de Arnaldina Moreira
* Obra do acervo da Biblioteca desta escola
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Poesia,
Sabedoria,
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sofrimento,
Vida
quarta-feira, 20 de maio de 2009
"Branca estais e colorada", Gil Vicente
Branca estais e colorada
Virgem sagrada
Em Belém, vila de amor
da rosa nasceu a flor
Virgem sagrada!
Em Belém, vila de amor
nasceu a rosa do rosal,
Virgem sagrada!
Da rosa nasceu a flor
para nosso Salvador:
Virgem sagrada!
Nasceu a rosa do rosal,
Deus e homem natural:
Virgem sagrada!
Gil, Vicente in Andresen, Sophia de Mello Breyner(org.) - Primeiro Livro de Poesia.Lisboa:Editorial Caminho,1997, p. 15.
Recolha de Jorge silva
* Obra do acervo da Biblioteca desta escola
Virgem sagrada
Em Belém, vila de amor
da rosa nasceu a flor
Virgem sagrada!
Em Belém, vila de amor
nasceu a rosa do rosal,
Virgem sagrada!
Da rosa nasceu a flor
para nosso Salvador:
Virgem sagrada!
Nasceu a rosa do rosal,
Deus e homem natural:
Virgem sagrada!
Gil, Vicente in Andresen, Sophia de Mello Breyner(org.) - Primeiro Livro de Poesia.Lisboa:Editorial Caminho,1997, p. 15.
Recolha de Jorge silva
* Obra do acervo da Biblioteca desta escola
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Poesia,
Religião
"Café/XXII ", José Gomes Ferreira
Bati com o pé no deserto
e não nasceu uma fonte...
Toquei numa rocha
e não se cobriu de açucenas...
Beijei uma árvore
e o enforcado não ressuscitou...
Amaldiçoei a paisagem
e não secaram as raízes...
Digam-me lá: para que diabo serve ser poeta?
(os Santos são mais felizes.)
Ferreira, José Gomes in Fanha, José, Letria (org.) - Cem Poemas Portugueses do Riso e do Maldizer. Cascais: Ed. Terramar, 2003,pág. 91
Recolha de Elisabete Teixeira e Ricardo Pinto
* Obra do acervo da biblioteca desta escola
e não nasceu uma fonte...
Toquei numa rocha
e não se cobriu de açucenas...
Beijei uma árvore
e o enforcado não ressuscitou...
Amaldiçoei a paisagem
e não secaram as raízes...
Digam-me lá: para que diabo serve ser poeta?
(os Santos são mais felizes.)
Ferreira, José Gomes in Fanha, José, Letria (org.) - Cem Poemas Portugueses do Riso e do Maldizer. Cascais: Ed. Terramar, 2003,pág. 91
Recolha de Elisabete Teixeira e Ricardo Pinto
* Obra do acervo da biblioteca desta escola
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sentimentos,
Vida
"Mar Português", Fernando Pessoa
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
para que fosse nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena,
se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador,
tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
mas nele é que espelhou o céu.
Pessoa, Fernando in Fanha, José, Letria, José Jorge- Cem Poemas Portugueses sobre Portugal e o Mar.2007, Cascais: Ed. Terramar, p. 73
Recolha de Ricardo Pinto e Elisabete Teixeira
* Obra do acervo da Biblioteca desta escola
São lágrimas de Portugal
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
para que fosse nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena,
se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador,
tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
mas nele é que espelhou o céu.
Pessoa, Fernando in Fanha, José, Letria, José Jorge- Cem Poemas Portugueses sobre Portugal e o Mar.2007, Cascais: Ed. Terramar, p. 73
Recolha de Ricardo Pinto e Elisabete Teixeira
* Obra do acervo da Biblioteca desta escola
Etiquetas:
Fernando Pessoa,
Literatura Portuguesa,
Poesia,
Poeta Português
"A Nau Catrineta", Popular
Lá vem a nau Catrineta
Que tem muito que contar!
Ouvide agora, senhores,
uma história de pasmar.
Passava mais de ano e dia
que iam na volta do mar,
já não tinham que comer,
já não tinham que manjar.
Deitaram sola de molho
para o outro dia jantar;
Mas a sola era tão rija,
que a não puderam tragar.
Deitaram sortes à ventura.
Qual se havia de matar;
Logo foi cair a sorte
No capitão general.
- «Sobe,sobe Marujinho,
Àquele mastro real,
Vê se vês terras de Espanha,
As praias de Portugal.»
-«Não vejo terras d'Espanha,
Nem praias de Portugal;
vejo sete espadas nuas
que estão para te matar.»
- «Acima,acima gajeiro,
Acima ao tope real!
Olha se enxergas Espanha,
Areias de Portugal.»
- «Alvíssaras,capitão,
Meu capitão general!
Já vejo terras de Espanha,
Areias de Portugal.
Mais enxergo três meninas,
Debaixo de um laranjal:
Uma sentada a coser,
Outra na roca a fiar,
A mais formosa de todas
Está no meio a chorar."
- "Todas três são minhas filhas,
Oh! quem mas dera abraçar!
A mais formosa de todas
Contigo a hei-se casar."
- "A vossa filha não quero,
Que vos custou a criar."
- "Dar-te-ei tanto dinheiro
Que o não possas contar."
- "Não quero o vosso dinheiro
Pois vos custou a ganhar."
- "Dou-te o meu cavalo branco,
Que nunca houve outro igual."
- "Guardai o vosso cavalo,
Que vos custou a ensinar."
- "Dar-te-ei a Nau Catrineta,
Para nela navegar."
- "Não quero a Nau Catrineta,
Que a não sei governar."
- "Que queres tu, meu gageiro,
Que alvíssaras te hei-de dar?"
- "Capitão, quero a tua alma,
Para comigo a levar!"
- "Renego de ti, demónio,
Que me estavas a tentar!
A minha alma é só de Deus;
O corpo dou eu ao mar."
Tomou-o um anjo nos braços,
Não no deixou afogar.
Deu um estouro o demónio,
Acalmaram vento e mar;
E à noite a Nau Catrineta
Estava em terra a varar.
ROMANCE POPULAR
Portugal
Andresen, Sophia de Mello Breyner (org.) - O Primeiro Livro de Poesia. Lisboa: Ed. Caminho,1997,p.38
Recolha de Elisabete Teixeira e Sílvia Moreira
*Obra pertencente ao acervo da Biblioteca desta escola
Que tem muito que contar!
Ouvide agora, senhores,
uma história de pasmar.
Passava mais de ano e dia
que iam na volta do mar,
já não tinham que comer,
já não tinham que manjar.
Deitaram sola de molho
para o outro dia jantar;
Mas a sola era tão rija,
que a não puderam tragar.
Deitaram sortes à ventura.
Qual se havia de matar;
Logo foi cair a sorte
No capitão general.
- «Sobe,sobe Marujinho,
Àquele mastro real,
Vê se vês terras de Espanha,
As praias de Portugal.»
-«Não vejo terras d'Espanha,
Nem praias de Portugal;
vejo sete espadas nuas
que estão para te matar.»
- «Acima,acima gajeiro,
Acima ao tope real!
Olha se enxergas Espanha,
Areias de Portugal.»
- «Alvíssaras,capitão,
Meu capitão general!
Já vejo terras de Espanha,
Areias de Portugal.
Mais enxergo três meninas,
Debaixo de um laranjal:
Uma sentada a coser,
Outra na roca a fiar,
A mais formosa de todas
Está no meio a chorar."
- "Todas três são minhas filhas,
Oh! quem mas dera abraçar!
A mais formosa de todas
Contigo a hei-se casar."
- "A vossa filha não quero,
Que vos custou a criar."
- "Dar-te-ei tanto dinheiro
Que o não possas contar."
- "Não quero o vosso dinheiro
Pois vos custou a ganhar."
- "Dou-te o meu cavalo branco,
Que nunca houve outro igual."
- "Guardai o vosso cavalo,
Que vos custou a ensinar."
- "Dar-te-ei a Nau Catrineta,
Para nela navegar."
- "Não quero a Nau Catrineta,
Que a não sei governar."
- "Que queres tu, meu gageiro,
Que alvíssaras te hei-de dar?"
- "Capitão, quero a tua alma,
Para comigo a levar!"
- "Renego de ti, demónio,
Que me estavas a tentar!
A minha alma é só de Deus;
O corpo dou eu ao mar."
Tomou-o um anjo nos braços,
Não no deixou afogar.
Deu um estouro o demónio,
Acalmaram vento e mar;
E à noite a Nau Catrineta
Estava em terra a varar.
ROMANCE POPULAR
Portugal
Andresen, Sophia de Mello Breyner (org.) - O Primeiro Livro de Poesia. Lisboa: Ed. Caminho,1997,p.38
Recolha de Elisabete Teixeira e Sílvia Moreira
*Obra pertencente ao acervo da Biblioteca desta escola
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