Havia fontes na montanha.
Mas estavam fechadas.
Ignoradas,
beijavam só as vaias da montanha.
Ora um dia
não sei que vento passou
que me ensinou
aquelas fontes que havia.
Eu tinha mãos e mocidade;
só não sabia pra quê.
Fez-se nesse momento claridade.
Rasguei o ventre dos montes
e fiz correr as fontes
à vontade.
Então
veio quem tinha sede e quem não tinha.
De todas as aldeias
vieram, cantando, as moças
encher as bilhas.
E eu fui também cantando ao som das águas...
Cantava as minhas mãos, cantava as fontes.
Era um canto jucundo,
cheio de sol.
Mas a meio da nota mais alegre
muita vez uma lágrima nascia.
(Ai quantos, quantos,
minha canção tornava mais conscientes
da sua melancolia
sem remédio!
Ai a mágoa
que lhes era meu hino!
Ai o insulto desumano
à sua melancolia!)
Era a meio do canto que surgia
seu travo amargo...
Mas, a meu lado, as águas
iam matando a sede de quem vinha...
Gama,Sebastião - Cabo da Boa Esperança. Lisboa:Editora Ática,s/d pp.22-24
Recolha de Sidónio Vieira
* Obra do acervo da Biblioteca desta escola
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quinta-feira, 21 de maio de 2009
"Desci dos celestes coros", Júlio Dinis
Desci dos celestes coros,
Por Deus mandada a escutar
Da infância as queixas e os choros,
para lhos ir confiar.
Desci.Na terra nos mares,
Tanta miséria encontrei,
Que os meus magoados olhares.
Da terra e mar desviei.
Desci.E tantos gemidos.
Tão dolorosos ouvi!
Que, turbados os sentidos,
Quis recuar...mas desci.
(...)
Dinis, Júlio - A Morgadinha dos Canaviais. Mem-Martins: Ed. Europa-América,1973, p.180
Recolha de Arnaldina Moreira
* Obra do acervo da Biblioteca desta escola
Por Deus mandada a escutar
Da infância as queixas e os choros,
para lhos ir confiar.
Desci.Na terra nos mares,
Tanta miséria encontrei,
Que os meus magoados olhares.
Da terra e mar desviei.
Desci.E tantos gemidos.
Tão dolorosos ouvi!
Que, turbados os sentidos,
Quis recuar...mas desci.
(...)
Dinis, Júlio - A Morgadinha dos Canaviais. Mem-Martins: Ed. Europa-América,1973, p.180
Recolha de Arnaldina Moreira
* Obra do acervo da Biblioteca desta escola
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Vida
"A BELEZA E A BONDADE", Manuel Francisco Rodrigues
A beleza encanta e fascina,
enchendo de amor o Mundo
e de doçura os corações.
A beleza de uma oração...
A beleza de um quadro precioso...
A beleza de uma jóia rara...
A beleza de uma escultura viva,
o perfume de uma flor,
o cintilar de uma estrela...
A beleza do clarão da aurora,
a despedida silenciosa do ocaso,
ou a música sem fim da Via Láctea...
A beleza da palavra bem delineada,
a beleza de um olhar doce,
a beleza de uma forma gentil...
A beleza da harmonia,
a beleza do ritmo e da suavidade,
a beleza que torna possível o perfeito...
............................................
Mas toda a forma de beleza parece fria
e até talvez nem sequer exista
independentemente de quem a aprecia...
Porém se for emoldurada pela bondade,
então torna-se tão cristalina,
tão visível e convincente,
que até quem não a sente
a estima e gosta dela,
pressentindo que a beleza é mais bela
se, com a bondade e por ela
for como na escuridão
a luz da chama da vela.
Rodrigues, Manuel Francisco - A Estrada do Tempo. Porto: Ed. do Autor, 1967, pp. 98-99.
Recolha de Manuel Silva
* Obra do acervo da Biblioteca desta escola
enchendo de amor o Mundo
e de doçura os corações.
A beleza de uma oração...
A beleza de um quadro precioso...
A beleza de uma jóia rara...
A beleza de uma escultura viva,
o perfume de uma flor,
o cintilar de uma estrela...
A beleza do clarão da aurora,
a despedida silenciosa do ocaso,
ou a música sem fim da Via Láctea...
A beleza da palavra bem delineada,
a beleza de um olhar doce,
a beleza de uma forma gentil...
A beleza da harmonia,
a beleza do ritmo e da suavidade,
a beleza que torna possível o perfeito...
............................................
Mas toda a forma de beleza parece fria
e até talvez nem sequer exista
independentemente de quem a aprecia...
Porém se for emoldurada pela bondade,
então torna-se tão cristalina,
tão visível e convincente,
que até quem não a sente
a estima e gosta dela,
pressentindo que a beleza é mais bela
se, com a bondade e por ela
for como na escuridão
a luz da chama da vela.
Rodrigues, Manuel Francisco - A Estrada do Tempo. Porto: Ed. do Autor, 1967, pp. 98-99.
Recolha de Manuel Silva
* Obra do acervo da Biblioteca desta escola
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"Caminho", José Saramago
Há mentiras de mais e compromissos
(Poemas são palavras recompostas)
E por tantas perguntas sem respostas
Mascara-se a verdade com postiços.
Não vida, nem sombra, nem razão
É jaula de doidice furiosa,
Eriçada de gritos, angulosa,
Com estilhaços de vidro pelo chão.
É carrego de mais esta jornada
E protestos não servem, nem suores,
Já mordidos os membros de tremores,
Já vencida a bandeira e arrastada.
Depois se me apagaram os amores
Que a viagem fizeram desejada.
Saramago, José in Fanha, José, Letria, José Jorge (org.)- Cem Sonetos Portugueses.Cascais: Ed. Terramar,2007,p. 113
Recolha de Isaura Pereira
* Obra do acervo da Biblioteca desta escola
(Poemas são palavras recompostas)
E por tantas perguntas sem respostas
Mascara-se a verdade com postiços.
Não vida, nem sombra, nem razão
É jaula de doidice furiosa,
Eriçada de gritos, angulosa,
Com estilhaços de vidro pelo chão.
É carrego de mais esta jornada
E protestos não servem, nem suores,
Já mordidos os membros de tremores,
Já vencida a bandeira e arrastada.
Depois se me apagaram os amores
Que a viagem fizeram desejada.
Saramago, José in Fanha, José, Letria, José Jorge (org.)- Cem Sonetos Portugueses.Cascais: Ed. Terramar,2007,p. 113
Recolha de Isaura Pereira
* Obra do acervo da Biblioteca desta escola
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quarta-feira, 20 de maio de 2009
"Este livro que vos deixo ", António Aleixo
Quando não tenhas à mão
outro livro mais distinto,
lê estes versos que são
filhos das mágoas que sinto.
Compreendo que envelheci
e que daqui já não passo
como não passam daqui
as pobres quadras que faço.
Julgam-me mui sabedor;
é tam grande o meu saber
que desconheço o valor
das quadras que sei fazer.
Recolha de Manuel Silva
Aleixo, António - Este livro que vos deixo. Lisboa: Direcção-Geral da Educação Permanente, 1976, pág.21
* Obra do acervo da Biblioteca desta escola
outro livro mais distinto,
lê estes versos que são
filhos das mágoas que sinto.
Compreendo que envelheci
e que daqui já não passo
como não passam daqui
as pobres quadras que faço.
Julgam-me mui sabedor;
é tam grande o meu saber
que desconheço o valor
das quadras que sei fazer.
Recolha de Manuel Silva
Aleixo, António - Este livro que vos deixo. Lisboa: Direcção-Geral da Educação Permanente, 1976, pág.21
* Obra do acervo da Biblioteca desta escola
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